Quando o Papa Francisco declarou Madre Teresa de Calcutá santa em 4 de setembro de 2016, mais de 100 mil pessoas lotaram a Praça de São Pedro. Mas a multidão era apenas a ponta visível de um processo longo, cuidadoso e quase forense. A Igreja Católica não canoniza os famosos, os amados ou os evidentemente bons só porque o mundo concorda que eram santos. Ela investiga. Ela interroga. Ela pede provas de que o próprio Céu confirmou o veredito. No caso de Madre Teresa, essa prova tomou a forma de duas curas — uma na Índia, outra no Brasil — que os médicos não conseguiram explicar. Esta é a história de como a Igreja decidiu que ela era santa, e por que tomou tanto cuidado para ter certeza.
Como a Igreja faz um santo
A canonização não é uma votação de popularidade. Ela avança por etapas claramente definidas, e cada uma precisa ser superada antes que a seguinte possa começar.
Tudo começa com o título de Servo de Deus, concedido quando uma diocese abre formalmente uma "causa" e começa a reunir testemunhos e escritos. Normalmente a Igreja espera cinco anos após a morte da pessoa para abrir a causa, deixando a emoção esfriar e permitindo que um registro honesto surja. Para Madre Teresa, falecida em 1997, o Papa João Paulo II dispensou esse período de espera — uma exceção rara que abriu sua causa em 1999.
Em seguida vem Venerável, o momento em que a Igreja declara que a pessoa viveu as virtudes cristãs em grau heroico — fé, esperança, caridade e as demais, praticadas não ocasionalmente, mas como a própria forma de sua vida. É um juízo sobre o caráter, ainda não sobre milagres.
Depois vem Beato, pela beatificação, que exige um milagre comprovado atribuído à intercessão da pessoa após sua morte. E, por fim, Santo, pela canonização, que exige um segundo milagre comprovado. Os dois milagres não são enfeite. São compreendidos como a confirmação do próprio Deus de que essa pessoa está no Céu e de que as orações que pedem sua ajuda são verdadeiramente ouvidas.
O que conta como milagre
A Igreja é célebre por sua cautela aqui, e deliberadamente. Um milagre aceito numa causa é quase sempre uma cura física, porque uma cura pode ser confrontada com prontuários médicos, exames de imagem e o testemunho dos médicos que trataram o paciente.
Para ser aceita, uma cura geralmente precisa ser completa — não uma melhora parcial; instantânea ou notavelmente súbita; duradoura, sem recaída; e, acima de tudo, cientificamente inexplicável, sem nenhuma razão médica disponível para a recuperação. O caso é examinado primeiro por uma junta de médicos independentes, muitos deles não católicos, cuja única tarefa é perguntar se a medicina pode explicar o que aconteceu. Só se concluírem que não pode é que o caso passa aos teólogos, que julgam se a recuperação esteve genuinamente ligada à oração que pedia a intercessão daquela pessoa específica. Um postulador conduz a causa por todas as etapas, e as conclusões sobem até o papa. Em qualquer ponto, uma única explicação comum pode encerrar a investigação.
O primeiro milagre: Monica Besra, na Índia
O milagre que levou à beatificação de Madre Teresa veio da parte do mundo que ela havia servido. Monica Besra era uma mulher pobre do estado de Bengala Ocidental que sofria de um tumor grande e doloroso no abdome. Em 2002 ela procurou uma casa das Missionárias da Caridade, a congregação fundada por Madre Teresa. As irmãs rezaram pela intercessão de Madre Teresa, e uma Medalha Milagrosa — uma medalha ligada à devoção mariana — foi colocada sobre a região afetada.
Segundo Besra, o tumor desapareceu. A investigação do Vaticano concluiu que a cura não podia ser explicada pelo tratamento médico que ela havia recebido. Em 19 de outubro de 2003, o Papa João Paulo II beatificou Madre Teresa diante de uma imensa multidão em Roma, declarando-a Beata — pouco mais de seis anos após sua morte, um ritmo extraordinariamente rápido para uma causa moderna.
O segundo milagre: Marcilio Andrino, no Brasil
O milagre que completou seu caminho à santidade veio do outro lado do mundo. Em 2008, Marcilio Haddad Andrino, um jovem brasileiro, estava gravemente doente, com múltiplos abscessos no cérebro e o perigoso inchaço da hidrocefalia. Seu estado se deteriorava, e ele estava sendo preparado para uma cirurgia de emergência.
Sua esposa rezou intensamente pela intercessão de Madre Teresa. Quando os médicos foram operar, encontraram o paciente inesperadamente lúcido e melhorado; a cirurgia não foi realizada como planejado. Andrino se recuperou plenamente — tão plenamente que ele e a esposa tiveram filhos depois, algo que a doença e o tratamento esperado deveriam ter tornado impossível. Os médicos que revisaram o caso não conseguiram oferecer explicação médica para a recuperação súbita, completa e permanente. O Vaticano aprovou o milagre em dezembro de 2015, vencendo a etapa final, e o Papa Francisco marcou a data da canonização.
4 de setembro de 2016
O Papa Francisco canonizou Madre Teresa em 4 de setembro de 2016, véspera de sua festa litúrgica e ponto central do Jubileu da Misericórdia que ele havia proclamado naquele ano. Em uma única frase pronunciada em latim, a Igreja acrescentou seu nome ao calendário dos santos, declarando pública e definitivamente que ela está no Céu, pode ser honrada em toda a Igreja e invocada em oração em todo lugar.
Vale notar o que o processo de fato honra. Os dois milagres não são a razão pela qual Madre Teresa é admirada — o mundo a admirava décadas antes que alguém examinasse uma cura. Os milagres servem a um propósito mais estrito e mais humilde: são o modo da Igreja de pedir ao Céu que confirme aquilo que as pessoas já acreditavam, em vez de confiar apenas no entusiasmo humano. As juntas médicas, os médicos não católicos, os teólogos, os anos de testemunho — tudo isso existe para tornar a Igreja lenta ao declarar um santo, justamente porque a declaração se destina a durar para sempre.
Essa mesma humildade percorria a mulher no centro de tudo. Ela passou décadas cuidando dos pobres moribundos de Calcutá enquanto, segundo suas próprias cartas íntimas, suportava uma longa e dolorosa sensação do silêncio de Deus. Ela não se sentia santa. A Igreja, examinando sua vida com todo o seu rigor, concluiu que ela era — e pediu ao Céu, duas vezes, que dissesse o mesmo.
A Crucis Lux conta a vida de Santa Teresa de Calcutá como uma série narrada e ilustrada — das ruas de Calcutá aos altares de Roma. A série chega em breve ao aplicativo.

