Quando os cardeais elegeram Karol Wojtyła em 16 de outubro de 1978, fizeram algo que nenhum conclave fazia havia 455 anos: escolheram um papa que não era italiano. Escolheram também um homem que passara todo o seu sacerdócio atrás da Cortina de Ferro, numa Polônia governada por um regime comunista que tratava a Igreja como rival a ser controlada e, sempre que possível, esvaziada. Em onze anos, aquele governo — e todo o bloco soviético ao seu redor — havia desaparecido. O papa não o derrubou com exércitos. Fez algo que os regimes temiam mais: devolveu a coragem a milhões de pessoas.
Um papa vindo de trás da Cortina de Ferro
Para entender o impacto, é preciso entender o sistema. Na Polônia do pós-guerra, o Estado controlava a imprensa, as escolas, os sindicatos e a vida pública. A religião era tolerada, mas pressionada: os seminários eram vigiados, carreiras eram fechadas aos crentes, e a versão oficial dizia que a história caminhava inevitavelmente para um futuro secular e socialista. Wojtyła vivera dentro dessa máquina por décadas — primeiro como operário e seminarista clandestino durante a ocupação nazista, depois como padre e arcebispo de Cracóvia, que driblava discretamente os censores, construía igrejas que as autoridades tentavam proibir e se recusava a ter medo.
Por isso, quando "o papa polonês" foi anunciado ao mundo, a notícia caiu em Varsóvia e em Moscou de modo muito diferente do que em Roma. Ali estava um homem que conhecia o regime por dentro, falava a sua língua e não podia ser descartado como um crítico estrangeiro.
Os nove dias que abalaram a Polônia
Em junho de 1979, João Paulo II voltou para casa. O governo não podia impedir a visita sem admitir o quanto o temia, então o deixou vir — e depois observou, alarmado, o país se reorganizar em torno dele. Em nove dias, estima-se que um em cada três poloneses o tenha visto pessoalmente. Imprimiram seus próprios boletins, organizaram suas próprias multidões, mantiveram sua própria ordem. Pela primeira vez em uma geração, milhões de pessoas descobriram que não estavam sozinhas nem impotentes — que a Polônia "oficial" da televisão não era a verdadeira.
Na Praça da Vitória, em Varsóvia, ele pregou sobre o Espírito Santo e depois rezou, em palavras que os poloneses jamais esqueceram: "Que desça o vosso Espírito e renove a face da terra — a face desta terra." Não era um discurso político. Não precisava ser. O simples fato de uma multidão livre, imensa, pacífica e abertamente católica já era a refutação de tudo o que o Estado afirmava ser verdade.
O Solidariedade e o estaleiro
A mudança não ficou no abstrato. Pouco mais de um ano depois, em agosto de 1980, os operários do Estaleiro Lenin, em Gdańsk, entraram em greve. Dessa greve nasceu o Solidarność — o Solidariedade —, o primeiro sindicato independente do bloco soviético, liderado por um eletricista chamado Lech Wałęsa. No auge, contava cerca de dez milhões de membros. Sobre o portão do estaleiro, ao lado das reivindicações dos grevistas, pendia um retrato do papa.
A ligação não era coincidência. Muitos dos que construíram o Solidariedade eram as mesmas pessoas que haviam estado naquelas multidões de 1979 e aprendido que a coragem é contagiosa. O regime reagiu: em dezembro de 1981 impôs a lei marcial, proibiu o sindicato e prendeu seus líderes. Mas a ideia não morreu. João Paulo II manteve a causa da Polônia nas primeiras páginas do mundo, recebeu Wałęsa, fez chegar apoio discreto às famílias dos presos e voltou em 1983 e 1987 para dizer ao seu povo, pessoalmente, que não desistisse.
'Não tenhais medo': palavras como arma
A frase que definiu todo o seu pontificado esteve presente desde o primeiro dia. Na Missa de início do ministério, em outubro de 1978, ele disse à multidão e ao mundo que assistia: "Não tenhais medo." Soa suave. Sob um regime que governava pelo medo, era radical. O medo era a principal ferramenta do sistema — medo de perder o emprego, a vaga na universidade, o passaporte, a liberdade. Um papa dizendo às pessoas para deixarem de ter medo, semana após semana, ano após ano, atacava o regime em seu alicerce sem jamais convocar a violência.
Essa insistência na não violência foi decisiva. João Paulo II nunca abençoou uma revolta ou um exército. Ofereceu algo mais firme: a convicção de que a dignidade humana vem de Deus e não pode ser concedida nem revogada por um Estado, e de que um povo que se recusa a mentir e se recusa a odiar não pode, no fim, ser governado pela força para sempre.
1989 e o que aquilo significou
Em 1989 a represa se rompeu — pacificamente. A Polônia realizou eleições parcialmente livres em junho; o Solidariedade as varreu. No outono, o Muro de Berlim estava aberto, e um regime após outro no Leste Europeu deu lugar, a maioria sem um único tiro. Os historiadores ainda debatem o peso exato de cada causa — o esgotamento econômico, as políticas de Mikhail Gorbachev, a pressão constante do Ocidente. Mas quase nenhum relato sério deixa o papa de fora. O próprio Gorbachev disse, mais tarde, que o que aconteceu no Leste Europeu não teria sido possível sem João Paulo II.
A leitura do próprio papa foi, como sempre, modesta e espiritual. Ele não reivindicou uma vitória da Igreja sobre seus inimigos. Falou, antes, de um reencontro com a verdade — de pessoas que simplesmente deixaram de fingir e, ao fazê-lo, descobriram que eram livres. Advertiu também, quase de imediato, que liberdade não é o mesmo que bondade, e que uma sociedade que se livra de um conjunto de mentiras pode cair em outro.
É esse o João Paulo II que vale recordar: não um operador político, mas um pastor que acreditava que o medo é uma prisão e que a saída é viver como se a verdade fosse verdadeira. Sua vida atravessou em cheio a mais sombria engrenagem do século XX — e saiu insistindo, até o fim, não tenhais medo.
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