Crucis Lux logoCrucis Lux

10 min de leitura · 23 de maio de 2026

Os Estigmas de São Francisco no Monte Alverne, 14 de setembro de 1224

Os estigmas de São Francisco no Monte Alverne, em 14 de setembro de 1224 — a visão do serafim, as fontes oculares e os primeiros estigmas da história cristã.

Os Estigmas de São Francisco no Monte Alverne, 14 de setembro de 1224

Os Estigmas de São Francisco no Monte Alverne, 14 de setembro de 1224

Ele havia subido o Monte Alverne, nos Apeninos toscanos, para quarenta dias de jejum e oração no fim do verão. Tinha quarenta e dois anos, estava exausto, meio cego por causa do tracoma e cada vez mais incapaz de comer sem dor. Havia começado o longo afastamento da liderança do movimento que fundara. Na véspera da Festa da Exaltação da Santa Cruz — 14 de setembro de 1224 —, Francisco de Assis orava sozinho numa saliência próxima ao cume e teve uma visão: um serafim de seis asas, com a figura de um homem crucificado no centro, suspenso no ar acima dele. Quando a visão terminou, suas mãos, seus pés e seu lado estavam marcados com as chagas da crucificação. Ele se tornou o primeiro estigmatizado documentado da história cristã.

É isso que dizem as fontes mais antigas que aconteceu. Há boas razões para tomá-las a sério — e uma delas é que Francisco fez tudo o que estava ao seu alcance para manter em segredo o que havia ocorrido até o dia de sua morte.

As Fontes Oculares

Três fontes, surgidas dentro de uma geração após o acontecimento, preservam o relato:

Os relatos convergem no essencial: Francisco foi ao Alverne com um pequeno grupo de irmãos para o costumeiro jejum de quarenta dias que antecede a festa de São Miguel; retirou-se sozinho a uma pequena cela eremítica no lado sul da montanha; por volta de 14 de setembro recebeu a visão e as chagas; tentou manter as marcas ocultas, usando o hábito puxado sobre as mãos e ataduras nos pés; somente após sua morte, dois anos depois, em 3 de outubro de 1226, os irmãos viram plenamente as chagas e as documentaram.

O Monte Alverne

A montanha — La Verna no italiano moderno — ergue-se abruptamente a 1.283 metros na floresta do Casentino, na Toscana. O Conde Orlando Cattani de Chiusi a havia dado a Francisco em 1213 como lugar de retiro, em gratidão por um sermão. Francisco preferia lugares remotos para os períodos mais intensos de oração. O Alverne tornou-se o seu predileto.

A montanha possui hoje um pequeno convento franciscano no local do eremitério original. A fenda na rocha onde Francisco orava — o Sasso Spicco, a Pedra Pendente — ainda é acessível. A cela onde os estigmas ocorreram é preservada como capela.

O Que Foi a Visão

A visão do serafim é o elemento mais marcante do relato, e a parte em que os quatro relatos evangélicos da Transfiguração mais claramente ecoam.

Celano e Boaventura descrevem Francisco vendo uma figura de seis asas descendo do céu. Duas asas cobriam a cabeça da figura, duas cobriam os pés, duas estavam abertas para o voo. No centro da figura, entre as asas, estava a forma de um homem crucificado. A figura era bela e o homem sofria. Francisco sentiu ao mesmo tempo alegria pela beleza e tristeza pelo sofrimento.

A visão durou algum tempo — Boaventura sugere um êxtase prolongado. Quando terminou, Francisco descobriu as marcas. As mãos e os pés tinham o que pareciam cravos, com as cabeças visíveis nas palmas e no dorso dos pés e as pontas dobradas do outro lado, como se o ferro tivesse atravessado a carne. O lado direito tinha uma ferida que sangrava.

A combinação — o serafim e o crucificado — é teologicamente densa. O serafim em Isaías 6 é uma das mais altas ordens dos anjos, a ordem cujo nome em hebraico está ligado ao fogo. O crucifixo no centro do serafim funde a mais alta ordem espiritual com o mais profundo sofrimento físico. Esse é o cerne do que a visão diz.

Como se Comportavam as Chagas

Celano, Boaventura e Leão são unânimes quanto ao caráter físico das chagas durante os dois anos que Francisco viveu depois.

O contraste com Padre Pio, setecentos anos depois, é instrutivo: enquanto as chagas de Padre Pio sangravam como feridas comuns, as de Francisco pareciam mais marcas de perfuração, com o próprio cravo de algum modo incrustado na carne. Ambos os casos são genuinamente estranhos e resistiram a uma categorização médica fácil.

As Testemunhas Após Sua Morte

Francisco morreu na Porciúncula na noite de 3 de outubro de 1226, com pouco mais de quarenta anos. Os irmãos imediatamente deitaram seu corpo no chão, conforme seu último desejo, e o prepararam para o sepultamento. As chagas ocultas estavam agora visíveis a todos.

Centenas de irmãos, cidadãos de Assis e clérigos vieram ver o corpo antes do sepultamento. As chagas foram inspecionadas com cuidado; Celano registra que os cravos nas mãos e nos pés eram inconfundíveis. Vários testemunharam sob juramento durante o processo de canonização, iniciado menos de dois anos depois. O Papa Gregório IX canonizou Francisco em 16 de julho de 1228 — uma das canonizações mais rápidas da história da Igreja — e testemunhou pessoalmente a existência dos estigmas.

A bula papal de canonização, Mira circa nos, refere-se explicitamente às chagas.

O Primeiro Estigmatizado

A Igreja Católica documentou centenas de estigmatizados desde Francisco — a maioria mulheres, a maioria nas eras medieval tardia e moderna. Catarina de Sena. Padre Pio. Marie-Julie Jahenny. Teresa Neumann. Ana Catarina Emmerich.

Francisco é, porém, o primeiro. Antes de 14 de setembro de 1224, nenhuma fonte cristã descreve uma pessoa viva portando as chagas da crucificação. Depois de Francisco, o fenômeno passa a fazer parte do panorama espiritual da mística católica.

A Igreja Católica nunca fez dos estigmas corporais um requisito da santidade nem uma confirmação dela. Os estigmas são tratados como um carisma — um dom concedido pelo Espírito para a edificação da Igreja, e não um prêmio particular para quem o recebe. Muitos santos não os tiveram; alguns que os tiveram não foram formalmente canonizados; a Igreja examina cada caso com cuidado.

O que é verdade em todos os casos que a Igreja aceitou é que os que receberam as chagas não as buscaram, sofreram por causa delas, esconderam-nas quando puderam e as usaram como estímulo para uma maior conformidade com o sofrimento de Cristo. Francisco é o protótipo.

Por Que a Festa da Exaltação da Santa Cruz

A datação não é coincidência. O dia 14 de setembro, no calendário católico, é a Festa da Exaltação da Santa Cruz — a festa que comemora a recuperação da Verdadeira Cruz pelo Imperador Heráclio em 628 e, mais profundamente, a celebração da cruz como instrumento da salvação.

Francisco havia estruturado sua vida como uma imitação literal de Cristo crucificado. Despira-se diante do pai e do bispo de Assis em 1206. Abraçara o leproso fora das muralhas. Mendigara esmolas de porta em porta. Organizara toda a sua comunidade em torno da Dama Pobreza. Os estigmas na véspera da Festa da Cruz são lidos pela tradição católica não como uma intrusão divina, mas como a conclusão natural de quarenta anos de imitação de Cristo — o corpo finalmente alcançando a alma.

O próprio Francisco escreveu duas orações pouco depois do acontecimento, ambas conservadas. Uma é o Louvor a Deus Altíssimo que escreveu na chartula para Frei Leão. A outra é uma bênção — O Senhor te abençoe e te guarde — que Francisco acrescentou de próprio punho ao pé da mesma chartula. O pedaço de pergaminho é uma das mais antigas relíquias franciscanas que sobreviveram.

O Alverne Hoje

O convento do Alverne permanece uma casa franciscana ativa. A cela onde Francisco recebeu os estigmas é hoje uma capela chamada Cappella delle Stimmate. O Sasso Spicco onde ele orava é acessível por uma trilha curta. Os irmãos realizam uma procissão diária até a capela, entoando o Ofício da Paixão, prática mantida desde o fim do século XIII.

A montanha é um dos lugares de peregrinação franciscana mais visitados da Itália, perdendo apenas para a própria Assis. Os peregrinos costumam percorrer o Cammino di San Francesco — o caminho franciscano — do Alverne a Assis e a Roma, refazendo trechos dos próprios passos de Francisco. O escritório de peregrinações do Vaticano mantém referências sobre o percurso.

O Que os Estigmas Pedem

Francisco recebeu as chagas e imediatamente tentou escondê-las. Não as interpretou como sinal de grandeza pessoal. Continuou a ditar o Cântico das Criaturas, a orar, a sofrer e a morrer. Dois anos depois estava morto.

Os estigmas não são um troféu da vida espiritual. São, como a tradição franciscana os leu desde então, um sinal de que a conformidade com o sofrimento de Cristo não é metáfora. Para a maioria dos cristãos permanece espiritual e oculta. Para alguns ao longo da história, foi visível. Francisco foi o primeiro.

Ouça São Francisco no Crucis Lux

O Crucis Lux conta a história de São Francisco e dos estigmas no Alverne como uma série de áudio ilustrada e de ritmo pausado — cada cena narrada, cada painel pintado no registro dos afrescos medievais, em cinco idiomas.

Baixe o app no iPhone ou Android →