Os Estigmas de São Francisco no Monte Alverne, 14 de setembro de 1224
Ele havia subido o Monte Alverne, nos Apeninos toscanos, para quarenta dias de jejum e oração no fim do verão. Tinha quarenta e dois anos, estava exausto, meio cego por causa do tracoma e cada vez mais incapaz de comer sem dor. Havia começado o longo afastamento da liderança do movimento que fundara. Na véspera da Festa da Exaltação da Santa Cruz — 14 de setembro de 1224 —, Francisco de Assis orava sozinho numa saliência próxima ao cume e teve uma visão: um serafim de seis asas, com a figura de um homem crucificado no centro, suspenso no ar acima dele. Quando a visão terminou, suas mãos, seus pés e seu lado estavam marcados com as chagas da crucificação. Ele se tornou o primeiro estigmatizado documentado da história cristã.
É isso que dizem as fontes mais antigas que aconteceu. Há boas razões para tomá-las a sério — e uma delas é que Francisco fez tudo o que estava ao seu alcance para manter em segredo o que havia ocorrido até o dia de sua morte.
As Fontes Oculares
Três fontes, surgidas dentro de uma geração após o acontecimento, preservam o relato:
- Tomás de Celano, Vita Prima Sancti Francisci, escrita entre 1228 e 1229, apenas dois a cinco anos após o evento, encomendada pelo Papa Gregório IX para a canonização. Celano conhecera pessoalmente Francisco. Tinha acesso aos irmãos que estiveram com ele no Monte Alverne.
- Frei Leão, secretário e confessor de Francisco, que esteve com ele no Alverne e deixou um breve texto em latim — a Chartula — sobre o qual o próprio Francisco escreveu, abençoando Leão. A chartula sobreviveu e é conservada na Basílica de São Francisco, em Assis.
- Boaventura de Bagnoregio, Legenda Maior, escrita entre 1260 e 1263, baseando-se no testemunho de irmãos ainda vivos que estiveram presentes.
Os relatos convergem no essencial: Francisco foi ao Alverne com um pequeno grupo de irmãos para o costumeiro jejum de quarenta dias que antecede a festa de São Miguel; retirou-se sozinho a uma pequena cela eremítica no lado sul da montanha; por volta de 14 de setembro recebeu a visão e as chagas; tentou manter as marcas ocultas, usando o hábito puxado sobre as mãos e ataduras nos pés; somente após sua morte, dois anos depois, em 3 de outubro de 1226, os irmãos viram plenamente as chagas e as documentaram.
O Monte Alverne
A montanha — La Verna no italiano moderno — ergue-se abruptamente a 1.283 metros na floresta do Casentino, na Toscana. O Conde Orlando Cattani de Chiusi a havia dado a Francisco em 1213 como lugar de retiro, em gratidão por um sermão. Francisco preferia lugares remotos para os períodos mais intensos de oração. O Alverne tornou-se o seu predileto.
A montanha possui hoje um pequeno convento franciscano no local do eremitério original. A fenda na rocha onde Francisco orava — o Sasso Spicco, a Pedra Pendente — ainda é acessível. A cela onde os estigmas ocorreram é preservada como capela.
O Que Foi a Visão
A visão do serafim é o elemento mais marcante do relato, e a parte em que os quatro relatos evangélicos da Transfiguração mais claramente ecoam.
Celano e Boaventura descrevem Francisco vendo uma figura de seis asas descendo do céu. Duas asas cobriam a cabeça da figura, duas cobriam os pés, duas estavam abertas para o voo. No centro da figura, entre as asas, estava a forma de um homem crucificado. A figura era bela e o homem sofria. Francisco sentiu ao mesmo tempo alegria pela beleza e tristeza pelo sofrimento.
A visão durou algum tempo — Boaventura sugere um êxtase prolongado. Quando terminou, Francisco descobriu as marcas. As mãos e os pés tinham o que pareciam cravos, com as cabeças visíveis nas palmas e no dorso dos pés e as pontas dobradas do outro lado, como se o ferro tivesse atravessado a carne. O lado direito tinha uma ferida que sangrava.
A combinação — o serafim e o crucificado — é teologicamente densa. O serafim em Isaías 6 é uma das mais altas ordens dos anjos, a ordem cujo nome em hebraico está ligado ao fogo. O crucifixo no centro do serafim funde a mais alta ordem espiritual com o mais profundo sofrimento físico. Esse é o cerne do que a visão diz.
Como se Comportavam as Chagas
Celano, Boaventura e Leão são unânimes quanto ao caráter físico das chagas durante os dois anos que Francisco viveu depois.
- As marcas nas mãos e nos pés pareciam cravos — Celano usa o latim clavorum, os irmãos usavam o italiano chiodi — e não simplesmente feridas. As cabeças dos cravos estavam nas palmas e no dorso dos pés; as pontas dobradas estavam no dorso das mãos e na planta dos pés.
- A ferida do lado direito estava aberta e sangrava. As testemunhas diziam que ela deixava sangue na túnica de Francisco.
- Francisco não conseguia caminhar sem dor intensa. Pelos dois anos restantes de sua vida, era geralmente carregado num jumento.
- Ele escondia as chagas. Puxava as mangas sobre as mãos e envolvia os pés com tiras de pano. Somente Frei Leão, seu confessor, via regularmente as marcas enquanto ele vivia.
O contraste com Padre Pio, setecentos anos depois, é instrutivo: enquanto as chagas de Padre Pio sangravam como feridas comuns, as de Francisco pareciam mais marcas de perfuração, com o próprio cravo de algum modo incrustado na carne. Ambos os casos são genuinamente estranhos e resistiram a uma categorização médica fácil.
As Testemunhas Após Sua Morte
Francisco morreu na Porciúncula na noite de 3 de outubro de 1226, com pouco mais de quarenta anos. Os irmãos imediatamente deitaram seu corpo no chão, conforme seu último desejo, e o prepararam para o sepultamento. As chagas ocultas estavam agora visíveis a todos.
Centenas de irmãos, cidadãos de Assis e clérigos vieram ver o corpo antes do sepultamento. As chagas foram inspecionadas com cuidado; Celano registra que os cravos nas mãos e nos pés eram inconfundíveis. Vários testemunharam sob juramento durante o processo de canonização, iniciado menos de dois anos depois. O Papa Gregório IX canonizou Francisco em 16 de julho de 1228 — uma das canonizações mais rápidas da história da Igreja — e testemunhou pessoalmente a existência dos estigmas.
A bula papal de canonização, Mira circa nos, refere-se explicitamente às chagas.
O Primeiro Estigmatizado
A Igreja Católica documentou centenas de estigmatizados desde Francisco — a maioria mulheres, a maioria nas eras medieval tardia e moderna. Catarina de Sena. Padre Pio. Marie-Julie Jahenny. Teresa Neumann. Ana Catarina Emmerich.
Francisco é, porém, o primeiro. Antes de 14 de setembro de 1224, nenhuma fonte cristã descreve uma pessoa viva portando as chagas da crucificação. Depois de Francisco, o fenômeno passa a fazer parte do panorama espiritual da mística católica.
A Igreja Católica nunca fez dos estigmas corporais um requisito da santidade nem uma confirmação dela. Os estigmas são tratados como um carisma — um dom concedido pelo Espírito para a edificação da Igreja, e não um prêmio particular para quem o recebe. Muitos santos não os tiveram; alguns que os tiveram não foram formalmente canonizados; a Igreja examina cada caso com cuidado.
O que é verdade em todos os casos que a Igreja aceitou é que os que receberam as chagas não as buscaram, sofreram por causa delas, esconderam-nas quando puderam e as usaram como estímulo para uma maior conformidade com o sofrimento de Cristo. Francisco é o protótipo.
Por Que a Festa da Exaltação da Santa Cruz
A datação não é coincidência. O dia 14 de setembro, no calendário católico, é a Festa da Exaltação da Santa Cruz — a festa que comemora a recuperação da Verdadeira Cruz pelo Imperador Heráclio em 628 e, mais profundamente, a celebração da cruz como instrumento da salvação.
Francisco havia estruturado sua vida como uma imitação literal de Cristo crucificado. Despira-se diante do pai e do bispo de Assis em 1206. Abraçara o leproso fora das muralhas. Mendigara esmolas de porta em porta. Organizara toda a sua comunidade em torno da Dama Pobreza. Os estigmas na véspera da Festa da Cruz são lidos pela tradição católica não como uma intrusão divina, mas como a conclusão natural de quarenta anos de imitação de Cristo — o corpo finalmente alcançando a alma.
O próprio Francisco escreveu duas orações pouco depois do acontecimento, ambas conservadas. Uma é o Louvor a Deus Altíssimo que escreveu na chartula para Frei Leão. A outra é uma bênção — O Senhor te abençoe e te guarde — que Francisco acrescentou de próprio punho ao pé da mesma chartula. O pedaço de pergaminho é uma das mais antigas relíquias franciscanas que sobreviveram.
O Alverne Hoje
O convento do Alverne permanece uma casa franciscana ativa. A cela onde Francisco recebeu os estigmas é hoje uma capela chamada Cappella delle Stimmate. O Sasso Spicco onde ele orava é acessível por uma trilha curta. Os irmãos realizam uma procissão diária até a capela, entoando o Ofício da Paixão, prática mantida desde o fim do século XIII.
A montanha é um dos lugares de peregrinação franciscana mais visitados da Itália, perdendo apenas para a própria Assis. Os peregrinos costumam percorrer o Cammino di San Francesco — o caminho franciscano — do Alverne a Assis e a Roma, refazendo trechos dos próprios passos de Francisco. O escritório de peregrinações do Vaticano mantém referências sobre o percurso.
O Que os Estigmas Pedem
Francisco recebeu as chagas e imediatamente tentou escondê-las. Não as interpretou como sinal de grandeza pessoal. Continuou a ditar o Cântico das Criaturas, a orar, a sofrer e a morrer. Dois anos depois estava morto.
Os estigmas não são um troféu da vida espiritual. São, como a tradição franciscana os leu desde então, um sinal de que a conformidade com o sofrimento de Cristo não é metáfora. Para a maioria dos cristãos permanece espiritual e oculta. Para alguns ao longo da história, foi visível. Francisco foi o primeiro.
Ouça São Francisco no Crucis Lux
O Crucis Lux conta a história de São Francisco e dos estigmas no Alverne como uma série de áudio ilustrada e de ritmo pausado — cada cena narrada, cada painel pintado no registro dos afrescos medievais, em cinco idiomas.
