Padre Pio passou cinquenta anos respondendo cartas. Elas chegavam a San Giovanni Rotondo aos sacos — crianças doentes, casamentos em ruína, homens que tinham deixado de crer, mães pedindo oração por um filho na guerra. Ele não conseguia responder a todas, e não fingia que conseguia. O que fazia, segundo os frades que viviam com ele e os relatos reunidos no convento, era levar aquelas intenções para dentro de uma oração que repetia todo dia: uma novena ao Sagrado Coração de Jesus.
Essa novena continua circulando com o nome dele. É curta, é feita inteira de palavras que Cristo diz nos Evangelhos, e se reza em uns cinco minutos. Aqui está o que ela diz de fato, o que se sabe honestamente sobre como passou a ser atribuída a ele, e quais são as outras orações associadas ao seu nome.
Duas coisas diferentes se chamam "novena de Padre Pio"
Vale separar de saída, porque os sites de devoção misturam as duas o tempo todo.
A primeira é a novena que Padre Pio rezava — a deste artigo. Ela se dirige ao Sagrado Coração de Jesus. Padre Pio não é o destinatário; é, por assim dizer, mais um suplicante.
A segunda é uma novena a Padre Pio, em que se pede a intercessão dele. Esses textos foram escritos depois da beatificação, em 1999, e da canonização por João Paulo II, em 2002, e são perfeitamente legítimos — pedir que um santo reze conosco e por nós é exatamente o que significa intercessão. Mas não é a mesma oração, e não é a que ele mesmo rezava.
Se a forma em si é nova para você, nosso texto sobre o que é uma novena explica a estrutura dos nove dias e a raiz dela no Cenáculo, entre a Ascensão e Pentecostes.
A estrutura
A novena tem um formato incomum. A maioria é uma oração composta e repetida por nove dias. Esta são três frases do Evangelho, cada uma devolvida a Cristo em forma de pedido, cada uma seguida das três orações que todo católico já sabe de cor.
Dia após dia, a mesma sequência:
- Uma frase de Cristo, citada de volta a Ele, seguida da intenção.
- Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
- A invocação: Sagrado Coração de Jesus, em Vós confio.
Isso três vezes, uma para cada frase. Depois, a novena se encerra com uma única oração ao Sagrado Coração.
O texto, como é comumente impresso
Primeira:
Ó meu Jesus, Vós dissestes: "Em verdade vos digo: pedi e recebereis, buscai e achareis, batei e vos será aberto." Eis que bato, busco e peço a graça de… (diga a intenção)
Pai-Nosso. Ave-Maria. Glória ao Pai. Sagrado Coração de Jesus, em Vós confio.
Segunda:
Ó meu Jesus, Vós dissestes: "Em verdade vos digo: tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vos concederá." Eis que, em vosso nome, peço ao Pai a graça de… (diga a intenção)
Pai-Nosso. Ave-Maria. Glória ao Pai. Sagrado Coração de Jesus, em Vós confio.
Terceira:
Ó meu Jesus, Vós dissestes: "Em verdade vos digo: o céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão." Animado por vossas palavras infalíveis, peço agora a graça de… (diga a intenção)
Pai-Nosso. Ave-Maria. Glória ao Pai. Sagrado Coração de Jesus, em Vós confio.
Oração final:
Ó Sagrado Coração de Jesus, a quem é impossível não Vos compadecerdes dos aflitos, tende piedade de nós, pobres pecadores, e concedei-nos a graça que Vos pedimos, pelo Coração Doloroso e Imaculado de Maria, vossa e nossa terna Mãe.
As três frases vêm de Mateus 7,7; João 16,23; e Mateus 24,35 (repetida em Marcos 13,31 e Lucas 21,33). A redação varia um pouco de santinho para santinho, porque as traduções variam; nenhuma variante muda o sentido.
O que se pode dizer com honestidade sobre a atribuição
Esta parte merece cuidado, porque a literatura devocional costuma ser descuidada com ela.
Não há indício de que Padre Pio tenha composto esta novena. A matéria-prima é Escritura, e a oração final ao Sagrado Coração pertence a uma tradição devocional muito anterior a ele — a devoção ao Sagrado Coração se difundiu na Igreja a partir das revelações do século XVII a Santa Margarida Maria Alacoque, em Paray-le-Monial, e orações desse tipo já circulavam largamente no século XIX.
O que se repete de modo consistente, no convento e nas coletâneas de conselhos dele, é que Padre Pio rezava esta novena todos os dias, por todos os que se recomendavam às suas orações. É daí que vem o nome: não autoria, mas hábito. É a oração com que, ao que se relata, ele carregava as necessidades dos outros.
Quanto peso isso tem é uma pergunta justa. Os relatos são devocionais, não arquivísticos: não existe uma página de caderno datada que resolva quando ele começou. Comparada, por exemplo, com os estigmas — onde há médicos com nome e relatórios assinados, que examinamos no registro médico das chagas de Padre Pio —, a documentação aqui é bem mais rala. O resumo honesto é o modesto: ampla e consistentemente atribuída a ele, não composta por ele, e não verificável numa data precisa. Nada do valor da oração depende de resolver isso, e inflar a afirmação só atrai o ceticismo de que a oração não precisa.
As outras orações que levam o nome dele
"Ficai comigo, Senhor." Uma longa oração de ação de graças depois da Comunhão — Ficai comigo, Senhor, porque preciso de Vos ter presente para não Vos esquecer — é impressa em quase toda parte sob o nome de Padre Pio. Ela exprime exatamente a devoção eucarística em torno da qual ele organizou a vida. A procedência do texto, porém, é tradicional e não documentada: reze-a como oração da tradição dele, não como um escrito que se possa rastrear até a sua mão.
"Reza, espera e não te preocupes." Prega, spera e non ti agitare é a frase mais repetida por quem conviveu com ele e a que aparece por toda parte nas coletâneas de seus conselhos. É conselho, não fórmula — e resume bem o que dizia a quem já tinha depositado uma intenção diante de Deus e continuava agitado.
O terço. O apego de Padre Pio ao Rosário é atestado por todos que viveram com ele; chamava-o de arma e raramente era visto sem as contas na mão. Os números de terços diários que se leem por aí variam enormemente e nenhum é confiável — trate os números como folclore e o hábito como fato.
A confissão e a Missa. As duas práticas que de fato tomavam os seus dias eram ouvir confissões — dez, doze horas seguidas — e celebrar a Missa demoradamente. Qualquer devoção a ele que pule essas duas está perdendo o centro de gravidade.
Como rezar os nove dias
Escolha uma intenção clara e mantenha a mesma nos nove dias; as lacunas do texto existem para serem preenchidas com algo concreto. Marque um horário que você consiga cumprir — cedo de manhã ou no fim do dia são os mais comuns — e reze as três frases, os três conjuntos de orações e a oração final. São cinco minutos.
Se faltar um dia, continue em vez de recomeçar. A disciplina existe para formar quem reza, não para ser uma sequência intocada que um deslize anula.
Muita gente encerra a novena em 23 de setembro, festa de São Pio de Pietrelcina — o dia em que morreu, em 1968, tendo levado os estigmas desde 1918 —, o que significa começar em 15 de setembro. Outros a ajustam à festa do Sagrado Coração, na sexta-feira depois da oitava de Corpus Christi. Nenhuma das duas é obrigatória: quaisquer nove dias seguidos servem.
Mais sobre a vida dele, narrada e ilustrada, está na série sobre Padre Pio.
O que a novena não promete
Não é um mecanismo. Nove dias não obrigam Deus, e a Igreja nunca ensinou que obriguem. As três frases do Evangelho são promessas de que o Pai ouve o que se pede em nome de Cristo — o que não é o mesmo que garantia de que a coisa exata que você nomeou chegará no formato que imaginou. Quem lhe disser o contrário está vendendo alguma coisa.
O que os nove dias fazem é manter uma necessidade diante dos seus olhos tempo suficiente para mudar o modo como você a carrega. É toda a lógica de uma novena — e é por isso que Padre Pio, que recebia mais pedidos do que qualquer homem poderia carregar, respondia a eles rezando a mesma coisa curta todo dia, durante cinquenta anos.


