Os Estigmas de Padre Pio: Cinquenta Anos e o Registro Médico
Na manhã de 20 de setembro de 1918, um jovem frade capuchinho do sul da Itália caminhou do coro de sua pequena igreja monástica até a sacristia. Sangue escorria pelo seu hábito nas mãos, nos pés e no lado. Ele sangrava de cinco feridas que pareciam marcas de perfuração de uma crucificação. Tinha trinta e um anos. As feridas não cicatrizavam, não infeccionavam e não se fechariam até a última semana de sua vida. Ele as carregou por cinquenta anos e dois dias.
É isto o que o registro médico de fato diz sobre os estigmas de Padre Pio. Não a lenda, não a hagiografia, não a literatura conspiratória — mas o que médicos com nomes e credenciais escreveram em papel timbrado oficial após examinarem as feridas, muitas vezes por ordem de um Vaticano profundamente cético, que em determinado momento o proibiu do ministério público por uma década.
O Frade de Pietrelcina
Francesco Forgione nasceu em 25 de maio de 1887, em Pietrelcina, uma aldeia de montanha na província de Benevento. Entrou no noviciado capuchinho aos quinze anos, recebeu o nome religioso de Pio, foi ordenado sacerdote em 1910 e, em setembro de 1916, foi designado ao convento de San Giovanni Rotondo, na península do Gargano, na Apúlia. Ali viveria pelos cinquenta e dois anos seguintes.
Já em 1916, Pio havia demonstrado o padrão que marcaria sua vida: longas horas no confessionário, intensa devoção eucarística, severos sofrimentos físicos que atribuía ao combate espiritual e relatos — inicialmente de seu confessor, depois dos frades da casa — de estigmas invisíveis, dores nas mãos e nos pés que não deixavam marcas. As feridas visíveis apareceram em 5–7 de agosto de 1918 (primeiro uma ferida no lado, chamada transverberação) e, depois, mais plenamente em 20 de setembro.
20 de Setembro de 1918
O relato de 20 de setembro vem do próprio Padre Pio, escrito por obediência a seu diretor espiritual, Padre Benedetto. Ele estava sozinho no coro após a Missa. Viu o que descreveu como um ser celeste cujas mãos, pés e lado gotejavam sangue. A visão o aterrorizou. Quando ela cessou, ele estava no chão e sangrava nos mesmos cinco lugares. Os outros frades o encontraram ali e o ajudaram a chegar à sua cela.
As feridas eram:
- Uma ferida na palma de cada mão, atravessando até o dorso, de cerca de dois centímetros e meio de diâmetro
- Uma ferida no dorso de cada pé, também transpassante
- Uma ferida diagonal no lado esquerdo, de cerca de sete centímetros e meio de comprimento, abaixo do coração
Elas sangravam continuamente — cerca de uma xícara de sangue por dia, segundo vários exames médicos — mas não infeccionavam, não apresentavam os sinais inflamatórios nas bordas que qualquer ferida aberta daquele tamanho normalmente mostraria, e não exibiam necrose.
Os Primeiros Exames Médicos
O Santo Ofício (hoje a Congregação para a Doutrina da Fé) encomendou exames médicos quase de imediato, porque o caso era extraordinário e as multidões que se reuniam em San Giovanni Rotondo já cresciam.
Luigi Romanelli, 1919
O Dr. Luigi Romanelli, chefe do hospital civil de Barletta, examinou Padre Pio durante oito dias em maio de 1919. Seu relatório, enviado ao Santo Ofício, descreveu as feridas em detalhe: perfurações transpassantes das mãos e dos pés, sem calo, sem tecido cicatricial, sem granulação, sem infecção. Ele não conseguiu apresentar uma explicação médica. Romanelli retornou para novos exames em 1920, 1925 e 1934 — as feridas permaneciam inalteradas.
Amico Bignami, 1919
O Dr. Amico Bignami, professor de patologia da Universidade de Roma, foi enviado pelo Santo Ofício em julho de 1919, justamente por sua sólida reputação médica e seu temperamento pessoalmente cético. Examinou Padre Pio minuciosamente. Seu relatório reconheceu que as feridas eram genuínas e inexplicáveis em sua persistência, mas propôs que poderiam ter sido iniciadas por autossugestão e depois mantidas abertas pela aplicação de iodo — hipótese que não resistiu ao escrutínio. Ele tentou selar as feridas por vários dias sob ataduras que ele mesmo assinou; elas continuaram a sangrar e não cicatrizaram. Bignami partiu sem produzir uma explicação natural coerente.
Giorgio Festa, 1920
O Dr. Giorgio Festa examinou Padre Pio em outubro de 1919 e novamente em 1920 e 1925. Documentou as feridas com fotografias, fez desenhos detalhados e escreveu um relato em forma de livro, Mistérios da Ciência e Luz da Fé (1933). Festa observou que as feridas das mãos não estavam centradas na palma à maneira da iconografia popular da crucificação, mas eram anatomicamente singulares de um modo particular: perfurações abertas e transpassantes cujas bordas não apresentavam cicatrização após anos.
O consenso médico entre os primeiros examinadores era: as feridas eram reais, persistentes e não explicáveis pelas categorias médicas comuns.
O Ceticismo do Vaticano
Vale ressaltar que a Santa Sé passou décadas cética em relação a Padre Pio, e não crédula diante dele. Em 1923, o Santo Ofício emitiu uma declaração afirmando que os acontecimentos em San Giovanni Rotondo não podiam ser confirmados como de origem sobrenatural. Em 1931, após anos de atrito com o clero e os bispos locais, o Vaticano proibiu Padre Pio de celebrar Missa publicamente e de ouvir confissões. A proibição durou dois anos.
Uma segunda onda de restrições veio em 1960, sob João XXIII, incluindo a escuta dos telefones do convento e limites mais rígidos à correspondência de Padre Pio e ao seu contato com os leigos. Algumas dessas medidas só foram suspensas após a posse de Paulo VI, em 1963.
Padre Pio submeteu-se em obediência durante todo o período. Nunca apelou publicamente, nunca falou contra a Santa Sé e continuou a viver a vida regular de um frade capuchinho sob quaisquer restrições que lhe fossem impostas.
O Que os Fiéis Viam
Por cinquenta anos, uma média de duzentos peregrinos por dia — e às vezes milhares — chegavam a San Giovanni Rotondo para assistir à Missa de Padre Pio, confessar-se com ele ou escrever-lhe. Ele celebrava a Missa de forma prolongada, às vezes por duas ou três horas, em evidente dor física. Ouvia confissões por dez ou doze horas por dia. Testemunhas descreveram-no recusando a absolvição a penitentes que não estavam contritos, por vezes enxergando questões que eles não lhe haviam contado.
Ele sempre usava meias-luvas nas mãos, com as palmas cobertas, e procurava esconder as feridas. Achava humilhante a atenção que elas atraíam.
Bilocação, Curas e a Visão Cética
Padre Pio também está associado a relatos de bilocação — sendo visto, por testemunhas identificadas, em lugares aonde não poderia ter viajado — e de curas milagrosas. A Igreja Católica investiga essas alegações como parte do processo de canonização. Dois milagres — a cura de Consiglia De Martino, em 1995, de um ducto torácico rompido, e a cura de Matteo Pio Colella, em 2000, de uma meningite aguda — foram médica e canonicamente certificados como inexplicáveis e empregados na beatificação (1999) e na canonização (2002) de Padre Pio.
A bilocação é mais difícil. A Igreja não exige que os católicos creiam em qualquer caso relatado específico. O fenômeno é registrado na vida de outros santos e é tratado como parte da categoria mais ampla dos fenômenos carismáticos que podem acompanhar a santidade autêntica.
A visão cética de Padre Pio — de que as feridas eram mantidas com ácido carbólico, de que alguns dos relatos eram fraude, de que o frade era um manipulador — já foi sustentada, mais notavelmente no livro de Sergio Luzzatto de 2007, Padre Pio: Milagres e Política numa Era Secular. Luzzatto cita material de arquivo, incluindo o relato de um farmacêutico que afirmou ter vendido ácido carbólico a Padre Pio. Os defensores de Padre Pio observam que o ácido carbólico era usado no convento como antisséptico geral e que as feridas existiam antes e depois de quaisquer dessas compras.
O que nenhum historiador crítico produziu foi um mecanismo médico que explique cinquenta anos de perfurações transpassantes, estáveis, não infectadas e não cicatrizadas, nas mãos, nos pés e no lado.
O Desaparecimento das Feridas
Esta é a parte da história menos conhecida fora dos círculos católicos.
Na última semana de sua vida, os estigmas de Padre Pio começaram a desaparecer. Ele celebrou sua última Missa na manhã de 22 de setembro de 1968 — no dia anterior à sua morte — e estava visivelmente debilitado. Naquela noite, os frades que o ajudaram a deitar-se perceberam que as feridas já estavam se fechando. Quando ele morreu, às 2h30 de 23 de setembro, as feridas haviam desaparecido por completo. A pele de suas palmas e do dorso de seus pés estava lisa, sem marcas, sem tecido cicatricial. A ferida do lado havia se fechado.
Os agentes funerários e os frades que prepararam seu corpo documentaram isso. Fotografias das mãos tiradas após a morte mostram a pele limpa, sem marcas. O que quer que tivesse causado as feridas as levara consigo.
Anos antes, ele dissera a um irmão frade que as feridas desapareceriam antes de sua morte. A profecia está preservada no testemunho prestado durante o processo de canonização.
Canonização e Legado
Padre Pio foi beatificado por João Paulo II em 2 de maio de 1999 e canonizado em 16 de junho de 2002, como São Pio de Pietrelcina. Sua festa é em 23 de setembro, o dia de sua morte. Seu corpo está sepultado no Santuário de São Pio de Pietrelcina, em San Giovanni Rotondo, um dos santuários católicos mais visitados da Itália.
A Casa Sollievo della Sofferenza ("Casa do Alívio do Sofrimento"), o moderno hospital que Padre Pio fundou em San Giovanni Rotondo e inaugurou em 1956, é hoje um dos principais hospitais do sul da Itália. É amplamente considerada sua obra visível mais duradoura.
Para um contexto mais amplo sobre o que a tradição católica entende a respeito dos carismas corporais na vida dos santos — feridas, êxtases, experiências místicas — veja os estigmas de São Francisco em La Verna, em 1224 e a transverberação de Santa Teresa de Ávila.
Para Que Serviam as Feridas
Quando instado, Padre Pio era claro sobre como entendia os estigmas: eram uma participação no sofrimento de Cristo em favor das almas. Ele usava a linguagem de alma vítima — uma alma que se oferece para partilhar do sofrimento redentor de Cristo. Ele rezava e sofria pelos pecadores; oferecia suas Missas pelas santas almas do purgatório; recebia centenas de cartas por dia pedindo oração e respondia a quantas conseguia.
Um homem que sangrou por cinquenta anos sem explicação médica, que carregou cinco feridas, uma pilha de cartas e o silêncio de um Vaticano que não confiava nele, manteve sua obediência e sua vida religiosa comum. Isto é mais difícil de imitar do que as próprias feridas.
Ouça Padre Pio no Crucis Lux
O Crucis Lux conta a história de Padre Pio como uma série de áudio ilustrada e de ritmo pausado — cada cena narrada, cada painel pintado no registro dos afrescos medievais, em cinco idiomas.
