Paulo no Caminho de Damasco: Luz, Voz, Apóstolo
Ele era um fariseu de Tarso, com pouco mais de trinta anos, viajando rumo ao norte pela estrada romana de Jerusalém a Damasco, levando cartas de autorização do sumo sacerdote para prender quaisquer judeus crentes do Caminho que pudesse encontrar nas sinagogas da capital síria. No ano anterior, ele estivera em Jerusalém durante o apedrejamento de Estêvão, guardando os mantos dos homens que arremessavam as pedras. Ele se oferecera como voluntário para esta missão. Acreditava, com a convicção rigorosa de alguém formado na escola de Gamaliel, que os seguidores do Nazareno eram blasfemos e que o futuro de Israel dependia de suprimi-los. Quando chegou às portas de Damasco, estava cego, indefeso, sendo conduzido pela mão. Três dias depois seria batizado. Em poucos meses estaria pregando nas mesmas sinagogas que viera vigiar.
A conversão de Paulo de Tarso, por volta do ano 33 ou 34 d.C., é o segundo evento singular mais decisivo da história cristã, depois da própria Ressurreição. É também um dos mais bem atestados, narrado três vezes nos Atos dos Apóstolos (capítulos 9, 22 e 26) e mencionado em várias das próprias cartas de Paulo. Os três relatos divergem em pequenos detalhes e concordam no essencial.
Saulo de Tarso Antes do Caminho
Saulo — seu nome hebraico; Paulo era a forma latina que ele depois usaria no mundo dos gentios — nasceu em Tarso, capital da Cilícia, na província romana do sudeste do que hoje é a Turquia. A cidade era um importante centro comercial de língua grega, com uma comunidade da diáspora judaica. Saulo nasceu cidadão romano por herança, fato que mais tarde usaria repetidamente em seu favor quando preso. Sua tribo era Benjamim. Sua seita, a dos fariseus. Seu mestre era Gamaliel, um dos rabinos fariseus mais respeitados do início do primeiro século.
Foi formado como fabricante de tendas, o ofício tradicional que os rabinos judeus muitas vezes mantinham para se sustentar. Ele nunca abandonaria esse ofício; sustentou-se em seu trabalho missionário posterior em Corinto, Tessalônica e outros lugares trabalhando com as próprias mãos.
Em suas próprias palavras, na carta aos Filipenses, ele fora circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu, filho de hebreus; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível. Não tinha nada de que se desculpar em sua observância judaica. Não era uma alma errante em busca de sentido. Era um erudito religioso bem-sucedido, no topo de sua profissão.
Era também, por sua própria confissão anos depois, cúmplice de violência. Estava presente e aprovava o apedrejamento de Estêvão, o primeiro mártir cristão, por volta do ano 33 d.C. Após a morte de Estêvão, Saulo lançou-se numa campanha pessoal contra a Igreja de Jerusalém — invadindo casas, prendendo homens e mulheres, encarcerando-os. Quando os crentes fugiram de Jerusalém, Saulo os perseguiu. A missão em Damasco era a extensão dessa campanha através da fronteira síria.
O Caminho
Damasco fica a cerca de 215 quilômetros de Jerusalém pela estrada romana. A jornada a pé levava cinco ou seis dias; com um pequeno grupo montado, menos. Saulo viajava com um grupo — Atos diz os que com ele iam — quase certamente armados.
O encontro, segundo Atos 9, ocorre ao meio-dia, em pleno sol. Saulo está perto de Damasco. O sítio cristão tradicional, assinalado desde a era bizantina, fica logo fora da cidade moderna, na estrada que vem do sudoeste. Uma luz do céu — mais resplandecente que o sol, dirá Paulo mais tarde em seu testemunho diante do rei Agripa — fulgura ao seu redor. Saulo cai por terra. Uma voz fala:
Saulo, Saulo, por que me persegues?
A voz está em aramaico, Paulo especificará depois. A repetição do nome — Saulo, Saulo — é a forma usada na Bíblia hebraica para o chamado divino (compare-se com Abraão, Abraão; Moisés, Moisés; Samuel, Samuel).
Saulo responde: Quem és tu, Senhor?
A voz: Eu sou Jesus, a quem tu persegues.
Este é o eixo teológico. Jesus identifica-se não com a doutrina que os discípulos pregam, mas com os próprios discípulos. Persegui-los é persegui-lo. As implicações para a eclesiologia católica — a doutrina da Igreja como Corpo de Cristo — começam aqui.
A voz manda Saulo entrar na cidade e esperar instruções. Saulo levanta-se. Foi cegado pela luz. Os homens que o acompanham ficam mudos. Tinham ouvido o som, mas não tinham visto ninguém; uma das pequenas diferenças narrativas entre os três relatos de Atos. Eles conduzem Saulo pela mão até Damasco.
Ele se hospeda na casa de um homem chamado Judas, numa rua chamada Direita — a Via Recta, uma das principais ruas romanas da antiga Damasco e ainda hoje uma das vias mais importantes da cidade, hoje chamada Bab Sharqi. Durante três dias Saulo não come nem bebe. Ele reza.
Ananias
A conversão de Saulo não se completa sem Ananias de Damasco, um discípulo do Caminho que vivia na cidade. O Senhor aparece a Ananias numa visão e manda-o ir à casa de Judas, na rua Direita, e impor as mãos sobre Saulo.
Ananias hesita. Ouviu falar de Saulo. Ouviu falar das cartas de prisão. Ir até ele é pedir para ser preso. O Senhor responde: Vai, porque este homem é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome diante dos gentios, dos reis e dos filhos de Israel.
Ananias vai. Impõe as mãos sobre Saulo e diz: Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, enviou-me para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo.
Algo como escamas cai dos olhos de Saulo. Ele vê. É batizado. Come. Os Atos dos Apóstolos não desperdiçam palavras com o intervalo.
A tradição em Damasco há muito aponta para uma capela — a Capela de Santo Ananias — construída sobre o porão do que tradicionalmente seria a casa de Ananias. A capela ainda está em uso como local católico de peregrinação.
Os Primeiros Anos
Saulo não foi imediatamente a Jerusalém. Segundo seu próprio relato na carta aos Gálatas, foi para o deserto da Arábia — provavelmente o reino nabateu em torno do que hoje é Petra — por um período não especificado que ele chama de três anos. Usou esse tempo, presumiram os primeiros Padres da Igreja, para refletir sobre o que encontrara no caminho à luz das Escrituras hebraicas que já sabia de cor. Quando mais tarde escreve aos Romanos e aos Gálatas, a coerência profunda de seus argumentos sugere que passara anos elaborando sua teologia em silêncio antes de proclamá-la.
Depois da Arábia, voltou a Damasco, em seguida foi brevemente a Jerusalém para conhecer Pedro e Tiago — quinze dias, diz Gálatas — e depois regressou à sua Tarso natal, onde Barnabé acabou por encontrá-lo e o levou a Antioquia por volta do ano 42 ou 43 d.C. De Antioquia começaram as viagens missionárias.
O Apóstolo dos Gentios
A missão que Paulo assumiu era inconfundivelmente sua. Os outros apóstolos pregavam principalmente aos judeus; Paulo concentrou-se no mundo dos gentios. Começou em Antioquia, espalhou-se por Chipre, Galácia (centro da Ásia Menor), Macedônia e Grécia, chegou por fim a Roma como prisioneiro e pode ter viajado até a Hispânia.
Fundou as igrejas de Filipos, Tessalônica, Corinto, Éfeso, Galácia, Colossos e as igrejas domésticas de Roma. A maioria das cartas que escreveu a essas comunidades sobreviveu — catorze cartas no cânon padrão do Novo Testamento, ainda que a erudição contemporânea distinga entre as cartas cuja autoria é universalmente aceita (Romanos, 1–2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses, Filêmon) e as cartas em que a questão é mais debatida (Efésios, Colossenses, 2 Tessalonicenses, as Epístolas Pastorais, Hebreus).
Essas cartas são os mais antigos documentos escritos do movimento cristão. São anteriores aos Evangelhos em dez a trinta anos. Contêm algumas das passagens mais citadas da teologia cristã — o hino ao amor em 1 Coríntios 13, o hino kenótico de Filipenses 2, a grande passagem cristológica de Colossenses 1, toda a arquitetura da justificação pela fé em Romanos e Gálatas.
A Morte de Paulo
Paulo foi preso em Jerusalém por volta do ano 57 ou 58 d.C., após um tumulto no Templo, e mantido sob custódia em Cesareia por dois anos, antes de exercer seu direito de cidadão romano de apelar a César. Foi transferido para Roma e passou dois anos em prisão domiciliar enquanto aguardava julgamento. Os Atos dos Apóstolos terminam aqui, em Atos 28.
As fontes extrabíblicas mais confiáveis — a carta de Clemente de Roma aos Coríntios (c. 96), Inácio de Antioquia (c. 107), a História Eclesiástica de Eusébio — concordam que Paulo foi martirizado em Roma durante a perseguição de Nero. Como cidadão romano, não podia ser crucificado; foi decapitado, tradicionalmente no local hoje assinalado pela Abadia das Três Fontes (Tre Fontane), nos arredores de Roma. A data tradicional situa-se entre os anos 64 e 67 d.C.
Seu túmulo está na Basílica de São Paulo Fora dos Muros (San Paolo Fuori le Mura), uma das quatro basílicas maiores de Roma. Em 2009 o Vaticano anunciou que a datação por carbono-14 de fragmentos ósseos de um sarcófago descoberto sob a basílica confirmou restos datados do primeiro ou segundo século, condizentes com a tradição. O resumo da investigação feito pelo Vaticano está disponível ao público.
O Que Significou a Conversão
Paulo não deixou de ser fariseu em seus modos de pensar. Pôs cada instrumento de sua formação rabínica a serviço de sua nova compreensão de quem era Jesus de Nazaré. Não suavizou suas convicções originais sobre a santidade de Deus ou a seriedade da Lei. Leu a Lei sob uma nova luz.
O que mudou foi um único fato: que Jesus, a quem ele perseguia, estava vivo. Paulo nunca argumenta a favor da Ressurreição em suas cartas; ele a pressupõe como o dado fundamental de sua existência. Tudo o que escreve decorre disso.
A conversão de Paulo coloca-se ao lado da conversão de Agostinho quatro séculos depois e da reabilitação de Pedro à beira do mar da Galileia como uma das três grandes conversões da tradição católica. Cada uma é um padrão diferente. Agostinho é a conversão lenta, intelectual, quase envergonhada de um homem finalmente acuado pela graça. Pedro é a reabilitação de um líder que falhou. Paulo é o raio fulminante — uma reviravolta instantânea de toda uma vida pelo encontro direto com Cristo ressuscitado.
A tradição católica manteve as três juntas porque, juntas, cobrem todo o terreno. Algumas pessoas convertem-se lentamente, outras são reabilitadas após o fracasso, outras são derrubadas de seus cavalos. O Senhor usa as três.
Ouça São Paulo no Crucis Lux
O Crucis Lux conta a história de Paulo de Tarso e o caminho de Damasco como uma série de áudio ilustrada e de ritmo pausado — cada cena narrada, cada painel pintado no registro dos afrescos medievais, em cinco línguas.
