Algumas orações são famosas pelo que dizem. Esta é famosa por quem se pensa que a disse — e essa parte não é verdadeira.
"Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz" está em santinhos, é lida em casamentos e funerais, citada por presidentes e cantada em dezenas de versões. É atribuída quase em toda parte a Francisco de Assis. Não é dele. Segue o texto, o que os documentos mostram sobre a origem, e o que Francisco escreveu de verdade — que é, se tanto, mais estranho e mais bonito.
O texto
Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; onde houver ofensa, que eu leve o perdão; onde houver discórdia, que eu leve a união; onde houver dúvida, que eu leve a fé; onde houver erro, que eu leve a verdade; onde houver desespero, que eu leve a esperança; onde houver tristeza, que eu leve a alegria; onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado, compreender que ser compreendido, amar que ser amado. Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna.
De onde ela vem
A história documentada da oração começa em 1912, em Paris, numa pequena revista devocional chamada La Clochette, boletim de uma associação de leigos. Saiu ali em francês, sob o título "Bela oração para rezar durante a Missa", sem indicação de autor.
Daí o rastro é seguível: o texto foi reimpresso, enviado a Roma, impresso no verso de santinhos durante a Primeira Guerra — e em alguns deles a imagem da frente era a de São Francisco. Foi assim que uma oração escrita no século XX ganhou o nome de um santo morto em 1226. Na Segunda Guerra a atribuição já estava fixada, e nunca mais se soltou.
Nada disso é contestado por quem estuda as fontes franciscanas. A oração não aparece em nenhum manuscrito medieval, em nenhuma coletânea antiga dos escritos de Francisco, nem nos relatos de vida escritos por quem o conheceu.
O que Francisco escreveu
Francisco deixou textos reais, e eles não soam como a oração da paz. São mais concretos, mais físicos, mais estranhos.
O Cântico das Criaturas — o Cântico do Irmão Sol — foi composto perto do fim da vida, em dialeto úmbrio, quando ele estava quase cego e com dores constantes. Louva a Deus através das criaturas chamadas por nomes de família: irmão Sol, irmã Lua, irmão Vento, irmã Água, irmão Fogo e, por fim, a irmã Morte, de quem nenhum vivente escapa. Um homem naquele estado escrevendo um hino de louvor ao sol que já não enxergava é o fato que vale guardar.
Ele também deixou os Louvores ao Deus Altíssimo, escritos em La Verna depois dos acontecimentos de 1224, além de regras e cartas breves. Esses são os documentos. As chagas de La Verna pertencem a esses mesmos últimos anos.
Por que o engano persiste — e por que não é escândalo
Oração sem autor é difícil de carregar. A cabeça quer um rosto, e "um leigo francês anônimo por volta de 1912" não é um rosto. Francisco é. E o texto de fato ecoa nele: a inversão do receber em dar, a preferência pelo lugar mais baixo, a recusa de estar no centro. Quem escreveu tinha lido bem a tradição franciscana.
A posição honesta, então, é simples, e é a que adotamos aqui: reze se lhe fizer bem — milhões rezam —, mas não a cite como palavra de Francisco. Dizer "a oração tradicionalmente atribuída a São Francisco" custa quatro palavras e é verdade.
O Cântico, para comparar
Leia os dois textos lado a lado e a diferença de voz aparece na hora. A oração da paz é abstrata e simétrica: ódio e amor, dúvida e fé, trevas e luz, cada par equilibrado como numa balança. Francisco não escreve assim. Ele escreve:
Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor irmão Sol, que é o dia e por quem nos dás luz.
Sol, lua, vento, água, fogo, terra — coisas que queimam e afogam, tratadas como parentes. Depois, na estrofe acrescentada quando estava morrendo, a irmã Morte. Ele também acrescentou uma estrofe sobre os que perdoam "por teu amor e suportam enfermidade e tribulação", e mandou cantá-la para reconciliar o bispo e o prefeito de Assis, que estavam em conflito aberto. Essa é a ideia de oração pela paz que ele teve: um canto, cantado por outros, numa briga específica, numa cidade com nome.
A lição não é que a oração moderna seja ruim. É que Francisco era concreto onde nós somos abstratos — e que, se a oração da paz o comove, os textos que ele escreveu de fato vão comover mais.
Como rezá-la
Ela funciona mal como texto para admirar e bem como texto para obedecer. Cada linha nomeia uma situação que você vai encontrar antes do fim da semana: alguém que lhe fez mal, alguém em desespero, alguém que quer ser compreendido antes de compreender você. Pegue uma frase — uma só — e carregue-a pelo dia.
A última linha é a dobradiça, e não é sentimental: é morrendo que se vive para a vida eterna. É a aritmética do próprio Evangelho, a mesma que Francisco passou a vida demonstrando em público. Se você quer a vida que produziu essa frase, ela está contada episódio a episódio na nossa série sobre Francisco de Assis, e o lobo de Gubbio é por onde quase todo mundo começa.


